O Gabinete de Franz Kafka? – Dia 31, por Pedro.
Começamos assistindo o Gabinete do Doutor Caligari, e acho que foi o que valeu o ensaio. Ou melhor, o que fez valer o ensaio, pois a passagem de cena depois ficou ótima, mesmo estando a 20 dias sem passar.
Atentamos para os climas do filme, as expressões sustentadas, muitas vezes exageradas, mas autênticas. Acho que isso faz parte do expressionismo, a emoção é verdadeira, mas é apresentada com a realidade interna. Assim, não é o caso de fazer caretas ou expressões exageradas gratuitamente, e sim encontrar a verdade nestas deformidades – uma emoção interna tão grande (ou estranha) que não pode ser apresentada como o morno mundo real.
Na nossa peça, também misturamos um pouco do surreal, uma deformação simbólica da realidade, ou melhor, apresentação simbólica da realidade, principalmente da realidade interior. Mas tudo isto são nomes, o ponto é apresentar arquétipos e relações arquetípicas, de forma lúdica e estética. Apresentar o contato com o estranhamento, a reação ao bizarro, expor o grotesco da vida.
As expressões devem ser exageradas porém críveis, dentro da lógica interna da peça. A linguagem poética entra quando o que desejamos exprimir não cabe em denotação. O contato com o absurdo da vida não cabe em fórmulas ou formas cotidianas.
Em seguida lemos o texto e fizemos um passadão, naquele esquema coxal do japonês no poleiro... Realmente precisamos de um cenário, ao menos provisório, para ensaiar a cena, para os atores não precisarem fazer mímica de subir escada, entre outras coisas. Para podermos ensaiar a cena no ambiente próprio, as diferenças de níveis, o espaço delimitado, a mesa para o jejuador sentar.
Também precisamos de um figurino prévio, mesmo que indicativo, para os atores se acostumarem a trabalhar com os props, tipo avental com barriga, túnica, estetoscópio, bengala, etc.
A cena está num ponto bem avançado, os personagens (quase todos) estão bem compostos e resolvidos em cena, alguns detalhes de encenação ainda precisam ser afinados, o texto precisa ser decorado, para dar desenvoltura a algumas cenas, notadamente o empresário, que tem as maiores falas. O Jejuador está muito bom, é o personagem mais difícil da peça, e também o centro das cenas, com este resolvido podemos compor as cenas em torno.
O principal é que posso ver um material interessante para compor a cena. Temos personagens e relações bem desenvolvidos e cenas vivas e dinâmicas, que prendem a atenção e divertem. Com este material posso ver a cena completa, ao acrescentarmos música, cenário, luz e figurinos.
Foi bom ver que não perdemos muito com estas férias, agora os atores precisam decorar o texto e eu acertar alguns detalhes de marcação e composição. Além dos elementos estéticos.
Já imagino o Franz Kafka narrando a cena de fora do palquinho, assistindo a seu devaneio. Imagino a música permeando toda a cena, provavelmente com uma ou mais faixas para cada cena. E a luz criando formas nas sombras e sombras nas formas.
Imagina só...

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